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Salvador, Bahia, Brazil
Jornalista, graduada pela Universidade Federal da Bahia.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sistema doente


Segunda-feira, 8h20 da manhã. Um casal, de idade avançada, encontra-se há duas horas sentado no banco de madeira do Hospital Geral Roberto Santos. Ela, a mulher do enfermo, mostra impaciência. “Esse povo pede para a gente chegar cedo, mas até agora nada de atender”, esbraveja. Ele, camisa aberta, enxuga o peito com movimentos lentos que denunciam sua dificuldade em fazer o mínimo esforço. Quem os visse ali talvez não imaginasse que esse atraso era apenas a gota d´água de um sofrimento que já se estendia por três meses. Sem dizer uma palavra ou fazer qualquer gesto, o marido espera sua vez de ser chamado; aos poucos, seu corpo vai cedendo, e ele se deita.
Que sofrimentos assim já viraram rotina nas filas dos hospitais públicos, isso já se sabe. A novidade, agora, é que o “teste de resistência de nervos” vem sendo aplicado também aos usuários dos planos de saúde – àqueles que já pagam duplamente por assistência médica, justamente por receio de passar por pesadelos como o desse casal.
O marido, Antônio Egídio, 61 anos, há três meses está com câncer de próstata. Naquele dia foi ao hospital marcar sua cirurgia. Por “machismo”, recusara-se a fazer o preventivo - e descobriu a doença já em estágio avançado. Seus pés inchados denunciavam a diabetes, adquirida há alguns anos.
Além de todas essas enfermidades, Egídio também sofre de mal de Parkinson, e, por este motivo, foi aposentado pelo INSS. Os dois, moradores do bairro de São Cristóvão, vêm enfrentando uma intensa jornada em busca de atendimento médico, devido à troca da sonda vesical que deve ser substituída mensalmente. “Fui em quase todos os postos de saúde de Salvador, mas sempre me diziam que não havia médicos suficientes”, conta a esposa, que, por desespero, chegou a cogitar sua ida a um popular programa televisivo em busca de ajuda. A solução para a troca da sonda veio quando um clínico de um dos postos de saúde sugeriu que buscassem o serviço num hospital maior – e Egídio foi finalmente atendido no Roberto Santos. Uma nova etapa começa a partir de então, com a espera para a realização da cirurgia. “Aí quem sabe é Deus”, diz dona Nilza, com resignação, sobre o futuro incerto do marido.
Crime sem castigo - Há três meses, também, deu-se início ao drama de João Batista Fernandes Filho. Funcionário de uma faculdade particular de Salvador, João Batista vem tentando, desde 26 de junho, submeter-se a uma cirurgia de hérnia de disco, mas sem sucesso. Usuário de um plano de assistência médica, tem sido vítima da negligência da empresa. O paciente já entrou duas vezes com pedidos na Justiça, e chegou a ter uma liminar deferida, mas nem assim foi operado. “O plano conseguiu driblar a decisão dizendo que o médico que faria a operação se recusou por não querer utilizar o material disponibilizado pelo hospital”, conta.
Por causa da hérnia, João Batista está de licença médica. Estudante de Letras, viu-se obrigado a interromper, além do trabalho, também os estudos. “Sinto tantas dores que durmo sentado”, queixa-se. João Batista já tentou marcar a mesma cirurgia pelo SUS, mas desistiu ao ser informado de que poderia levar por volta de um ano para ser operado. O usuário do plano de saúde também procurou a agência incumbida de investigar abusos neste setor – ANS -, novamente sem sucesso. Humilhado, João Batista confessa que vai ser difícil esquecer o descaso que tem sofrido. “Tapa dado ninguém tira”, desabafa.

(Setembro de 2009)

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