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Salvador, Bahia, Brazil
Jornalista, graduada pela Universidade Federal da Bahia.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Vídeo Show é o grande comercial global

O Vídeo Show faz parte da programação global desde 1983. De lá pra cá, o programa tem se incumbido de revelar os bastidores das produções da emissora carioca, através de entrevistas com as estrelas da casa e da reprise dos melhores momentos da TV brasileira. Vários artistas já ficaram à frente da atração, até que, no final dos anos 80, o “multimídia” Miguel Falabella estabeleceu-se como seu apresentador fixo, fazendo uma dupla carismática com a atriz e repórter Cissa Guimarães. Durante este tempo, também não foram poucas as mudanças de dia e de horário da atração vespertina, seguidas com atenção por um público fiel, boa parte dele, inclusive, que cresceu com o programa.

A televisão sobrevive da curiosidade das pessoas pela intimidade alheia. O Vídeo Show, há mais de 20 anos, explora esse traço da personalidade da audiência, aproveitando-se disso para, ainda, humanizar e aproximar o público da emissora. O trabalho da atração é mostrar que artista é “gente como a gente” e portanto trabalha duro, erra e também tem seus momentos de descontração durante o trabalho.

Quadros como Por onde anda? e Túnel do Tempo se encarregavam de estabelecer um link afetivo entre a trajetória do veículo e a história de vida do público, em sessões nostálgicas de contato com programas clássicos, quase sempre telenovelas, e os artistas que fizeram a história do veículo. Ao recordar os “grandes momentos” da televisão, conferia-se, conseqüentemente, uma maior validação ao ato de assisti-la. Por trás dos momentos de flashback, havia uma espécie de discurso sobre o “orgulho de ser telespector”, que dizia algo assim à audiência: “A televisão não é apenas algo que nos entretém no presente mas que compõe a história de nossas vidas, de nossa sociedade”.

Duas décadas depois, o programa continua fazendo sucesso junto ao público e sendo exibido diariamente, de segunda a sábado. Seu apresentador e os repórteres já não são os mesmos, e nem assisti-lo também é. O Vídeo Show tornou-se o grande comercial da TV Globo, concentrando quase todo o seu esforço na divulgação daquilo que será exibido pela emissora logo mais à noite e deixando para trás o que fazia melhor: seu papel de arquivo histórico.

Até mesmo as descontraídas enquetes e entrevistas com os atores, diretores e escritores estão sendo direcionadas de forma a garantir a audiência das atrações do horário nobre da Rede Globo. Um exemplo dessa transformação ocorreu há alguns meses, quando a equipe foi visitar a então grávida Cláudia Raia. Sob o pretexto de presentear a atriz, a repórter Renata Simões fez um desfile de roupas de bebê-vampiro, aproveitando o gancho para divulgar a moda vamp lançada pela novela das 19h da época, O Beijo do Vampiro.

Mulheres Apaixonadas foi outra atração da casa que, recentemente, se beneficiou do programa. Com uma fraca média de audiência em seus primeiros meses de exibição, a novela de Manoel Carlos ganhou um significativo auxílio da equipe do Vídeo Show, que exaustivamente apresentava os bastidores das cenas que iriam ao ar no dia, promovia enquetes com a participação do elenco e discussões em seu site sobre temas abordados no folhetim, e isso sem mencionar as traduções das músicas estrangeiras da trilha sonora da novela.

A mudança do perfil da atração segue a nova concepção da vice-diretora da Globo, Marluce Dias, de explorar as telenovelas em grandes pacotes de produtos associados, como livros, dvds, acessórios e o que mais a criatividade do departamento de marketing permitir. Certamente uma das funções do Video Show é a divulgação da grade de programação da emissora, e este papel sempre existiu. A diferença é que, em seus melhores tempos, isto era feito de forma mais criativa, instrutiva e menos comercial.

O programa tem perdido nos últimos meses algo que o tornava fundamental para a TV brasileira: a manutenção da memória histórica do telespectador. O Vídeo Game, gincana de famosos apresentada por Angélica, tenta de alguma forma suprir essa função, mas sem muito êxito. Para um veículo caracterizado pela rapidez, pela fragmentação e pela perecividade como a televisão, poder contar com uma produção, em sua grade, que ajuda a firmar a sua importância social e histórica não é só conveniente mas essencial.

(Jornal da Mídia.Com, 2003)

Do luto à luta

Quem perde o cônjuge é viúva ou viúvo. Quem perde os pais é órfão. Mas quem perde um filho ou uma filha, torna-se o quê? Não existe palavra na língua portuguesa capaz de classificar quem passa por esse tipo de drama, que foge à ordem comum da vida. Talvez, também, por isso seja tão difícil recuperar-se da perda de um filho: apesar da ausência, continua-se sendo visto, socialmente, como pai e mãe de quem não vive mais.
Há seis anos essa tragédia se abateu sobre a família da ex-professora de inglês, Simone Costa. O mais velho dos seus quatro filhos, Ricardo, à época com 22 anos, faleceu num acidente de carro.
A dor pela perda do primogênito até hoje não foi superada, mas não levou Simone ao isolamento, como acontece freqüentemente nesses casos. Pelo contrário. A tragédia estimulou-a a se tornar “mãe”, em dois turnos, de 62 crianças das redondezas do bairro do Bonfim. A “Creche e Orfanato Baby” é a sua razão de viver há quatro anos e, também, sua homenagem ao filho falecido.
As crianças permanecem no espaço das sete às 17 horas, estudando, pela manhã, e participando de atividades recreativas, à tarde. Os alunos da creche têm entre dois e seis anos de idade e são oriundos de famílias com dificuldades financeiras. Para uma parcela dessas crianças, as três refeições que Simone e sua pequena equipe de colaboradores oferecem são as únicas do dia. “Aqui, na creche, eles comem, aprendem e são bem cuidados. Eu não tenho idéia de como faria com o meu filho se não existisse esse lugar”, diz a mãe de um dos alunos, Conceição Santos.
Algumas dessas crianças, além de conviverem com a pobreza, também são provenientes de lares desajustados. Mesmo os menores do grupo já demonstram as marcas que a falta de estrutura familiar pode causar: “Eles chegam aqui rebeldes, agressivos com os coleguinhas, e, certamente, estão influenciados pelo que vêem em casa. Alguns são filhos de alcoólatras. Felizmente, com o tempo conseguimos reverter esse comportamento”, conta Simone Costa.
Mas só amor não enche barriga, como diz o ditado. A coordenadora da creche entristece-se diante da possibilidade de ter de fechá-la. O espaço é sustentado praticamente por Simone e suas quatro colaboradoras, além de algumas poucas doações que recebem, esporadicamente, de empresas. As dificuldades, com o passar dos meses, vêm aumentando. Além do malabarismo financeiro para continuar mantendo as crianças alimentadas e educadas, a casa onde funciona a creche já começa a dar os primeiros problemas físicos. O telhado, por exemplo, precisa de conserto.
Entretanto, essa é uma equipe que não guarda luto e vai à luta. Simone já conseguiu, com uma empresa de engenharia, o conserto do telhado. Nos próximos meses, a meta é ampliar a divulgação do projeto, através de folders e de um website, e atrair mais colaboradores para a causa.

(Pampulha Post, outubro de 2007, adaptado)